Fenômeno Espírita no Ceará em 1840
Caso narrado por Bezerra de Menezes

Por Luciano Klein Filho
O autor é Bacharel em Administração de Empresas, Licenciado em História, escritor e expositor espírita; está integrado à Federação Espírita do Estado do Ceará.

Texto publicado na Revista Internacional de Espiritismo nº 3 de abril/2004


Sob o título Pré-Espiritismo, Reformador órgão informativo da Federação Espírita, Brasileira, publicou, em sua edição de 15 de agosto de 1890, artigo da lavra de Bezerra de Menezes, aludindo a um insólito fenômeno mediúnico ocorrido no Ceará Provincial, nos idos de 1840. O fato retratado pelo Médico dos Pobres é um típico caso de subjugação espiritual e merece destaque por ter se passado no sertão cearense, oito anos antes dos fenômenos de Hydesville despertarem a atenção mundial e mais de vinte anos antes de Allan Kardec  publicar "O Livro dos Médiuns", analisando e classificando esse tipo de obsessão.

Por se tratar de um documento precioso, reportando-se à proto-história do Espiritismo, transcrevemo-lo, a seguir, com a inserção de notas que o enriquecerão. 

"O doutor Antônio Leopoldino de Araújo Chaves1”, juiz de direito da comarca de Quixeramobim2, na província do Ceará, é homem da maior respeitabilidade, tendo vindo em correição à freguesia do Riacho do Sangue3, isto em 1840, mais ou menos, referiu em casa da família do autor destas linhas e em sua presença4 o seguinte fato, que a muitos fez perder noites de sono:

Bezerra de Menezes em foto publicada no livro do autor (Bezerra de Menezes - Fatos e Documentos) da Editora Lachatre. O original da foto, da década de 80 do século XIX, foi gentilmente doada pelo historiador cearense Eduardo Bezerra Neta, sobrinho trineto do Médico dos Pobres.

Foi em S. João do Príncipe5, onde o doutor Chaves tinha a família e fazendas. Próximo de sua residência morava uma gente pobre porém honrada e sobretudo muito religiosa que não se deitava sem rezar o Terço e não se levantava sem cantar o ofício de Nossa Senhora.
A boa gente constava do casal e dos filhos, entre os quais duas ou três moças, que ocupavam um quarto, dando para longo corredor, que comunicava a sala de visitas com a de jantar.
Das moças, uma tinha gosto pela criação do terreiro, e por isso, logo ao romper do dia, saía a cuidar dela.

Era ela jovial e por isto causava reparo, apresentar-se distraída e indiferente, um dia, e desde que recolheu-se de seu trabalho costumeiro.
Assegurando que nenhuma moléstia sentia, tranqüilizou pais e irmãos, até que, chegada a noite e à hora do Terço, notaram todos sua falta na sala do oratório.

Foi uma irmã chamá-la no quarto onde se achava e voltou estupefata, por ouvir-lhe palavras heréticas contra a religião.
Surpreendidos os pais, principalmente por não ter acudido a seu chamado, ela que era dócil e obediente, mandaram novamente dizer-lhe que só se esperava por ela.
A resposta foi que podiam esperar quanto quisessem que ela não estava mais disposta a concorrer para ridículas práticas.

Indignado com tal resposta, o pai foi ao quarto e sem dizer palavra tomou-lhe bruscamente o braço e trouxe-a quase de arrasto para o oratório.
Enquanto vinham pelo corredor, a moça pouca resistência opunha, mas quando chegaram à sala onde estava e oratório, deu um grito de fazer todos tremerem e, desprendendo-se das mãos do pai, pareceu que voava até o seu reduto, o quarto, que era o ponto mais distante da sala.

Sem saber o que pensar de tudo aquilo, que lhe transtornava a mente, e pai voltou a arrastá-la; porém não teve forças para contê-la, desde que chegaram diante do oratório.
Então irrompeu a loucura, que não era furiosa, porém anti-religiosa. A moça escarnecia de tudo o que mais acatara na vida: de Deus, de Jesus Cristo, de Nossa Senhora; e fazia-o em tom e linguagem que não eram os seus.

A pobre gente caiu em desolação e, convencida de que aquilo eram artes  do demônio, que a moça estava endemoninhada, recorreu ao capelão de Cococi6, que era o padre mais próximo.
Inútil é dizer que de todas as partes acudia o povo, para ver o fato assombroso. O doutor Chaves foi um desses.

Muito antes de chegar o capelão, já a moça o apostrofava, causando geral espanto; porque tinha-se mandado muito em segredo chamar o padre.
Chegado este
, em quem todos punham a esperança, foi recebido a gargalhadas, revelando a possessa os mais íntimos mistérios da vida pouco edificante do sacerdote.

Perdida esta esperança, recorreu-se ao padre Frutuoso7, que vigariava a freguesia, e tanto que foi ele se aproximando, começou a endiabrada a perder o ar faceiro tomando-se séria, até parecer triste.
O vigário dominou-a ao ponto de lhe obter obediência para tudo, menos para fazê-la rezar, por dizer que era pagão. Curioso daquele fato, que lera nas Escrituras mas que nunca encontrara, Frutuoso faz múltiplas e várias experiências.
Faz a moça ler e escrever, coisa que ela não sabia. Fá-la discorrer sobre assuntos que ela completamente ignorava. Chegou a obter que traduzisse frases do Breviário8.
Um fato sobretudo, aturdiu a todos: o espírito que estava no corpo da moça e que disso não fazia mais mistério, ia para a parte que lhe era indicada e logo essa parte, um dedo da mão, por exemplo, ficava horrorosamente inchado, parecendo dar fumaça.

Enquanto o vigário saía a descansar, porque a luta durou dias, e ficava o capelão, era de ver a transformação que fazia a moça, tornando-se galhofeira e cruelmente satírica com o padre.
Desde, porém, que Frutuoso partia para a casa da infeliz, esta voltava à seriedade, dizendo: “Ah! Vem quem pode”.
Vendo que não conseguia resultado com exorcismo, o vigário convidou o povo a uma procissão de prece, conduzindo para a igreja matriz a possessa.

Foi medonha a luta para arrancá-la de casa e mesmo para contê-la durante o trajeto; mas ao entrar na porta principal da matriz, a infeliz que vinha segura por dois homens possantes, desprendeu-se deles, deu um urro medonho, com um salto quase impossível e caiu exangue em terra.
Quando voltou a si estava livre do demônio.

Esta história que ouvi no Riacho do Sangue, do doutor Araújo Chaves, me foi confirmada pelo padre Frutuoso, na capital da província onde me achava quando ele aí veio Como deputado provincial9.
Devo declarar que era eu bem menino quando a ouvi no Riacho do Sangue, e que foi alguns anos depois que tive a ratificação pelo Frutuoso, na capital.
Naquele tempo, e principalmente entre gente ignorante, vigorava a idéia de que era o demônio que fazia aquelas artes; por isso, tanto o doutor Araújo Chaves, como o padre Frutuoso, contavam aquele fato como prova de poder o inimigo entrar no corpo (é como dizem) de um ser humano.

Hoje, não é preciso dizê-lo, tais fatos atestam simplesmente a ação de um espírito humano desencarnado. Aquela moça era um médium inconsciente; por isso a obsessão tomou o cunho da incorporação"


(1)  Filho do Coronel João de Araújo Chaves e Josefa Feitosa nasceu nos Inhamuns, Ceará. Formado em Direito pela faculdade de Pernambuco, foi juiz em Quixeramobim e Inhamuns, no Ceará, em Alcântara no Maranhão e de novo em Quixeramobim. Removido   para Brejo de Areia na província da Paraíba, ali faleceu em 1856 vítima de febre amarela.
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(2) Fica a 220 KM de Fortaleza.
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(3) Hoje, cidade de Jaguaretama, no Ceará.
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(4) Bezerra estava portanto com nove anos.
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(5) Hoje, Município de Tauá, no Ceará. Chamou-se inicialmente São João do Príncipe e São João do Príncipe dos Inhamuns.
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(6) Cococí é atualmente distrito de Parambu, Ceará, desmembrado do Município deTauá. Foi extinto em 1968 quando o IBGE descobriu, entre outros fatores, que faltava quorum populacional para ter direito à emancipação.
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(7) Frutuoso Dias Ribeiro, nasceu em Icó, Ceará, em 13 de outubro de 1805. Era filho de Frutuoso Dias Ribeiro e Maria Teresa de Jesus. Ordenado no oratório do Palácio Episcopal de Olinda, Pernambuco, foi coadjutor da Paróquia de São Mateus (Jucás), Ceará, em 1829, vigário de Riacho do Sangue, em 1833, de Quixeramobim, em 1834 e Mombaça, também na província cearense, em 1835. Em julho de 1838, tornou-se Vigário da Igreja Matriz de São João do Príncipe.
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(8) Pelo que depreendemos da leitura deste trecho da narrativa, podemos concluir que o padre Frutuoso foi um dos primeiros experimentadores de fenômenos psíquicos do Brasil e do Mundo. Mesmo destituído de uma metodologia adequada à investigação do fenômeno, e desconhecendo suas nuanças, ele procedeu com curiosidade científica, perguntando e testando a entidade comunicante. Ademais, é possível ter esse fato ocorrido em 1838, pois foi, conforme nota anterior, o ano em que Frutuoso assumiu a Matriz de São João do Príncipe.
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(9) Frutuoso foi Deputado Provincial, sendo presidente do Poder Legislativo do Ceará, em 1843.
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